quarta-feira, 3 de agosto de 2011

PREVALÊNCIA DE HIPOPLASIA DE ESMALTE DENTAL EM PACIENTES CELÍACOS


                          Luciana Quintão Foscolo Melo - UFMG - 2007
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

AAE – Anticorpo antiendomísio
AAG – Anticorpo antigliadina
ACELBRA-MG – Associação dos celíacos do Brasil seção Minas Gerais
C – Celíacos
DC – Doença Celíaca
HLA - Human Leucocyte Antigen
Ig A – Imunoglobulina A
Ig G – Imunoglobulina G
MG – Minas Gerais
NC – Não celíaco
UFMG – Universidade Federal de Minas Gerais


JUSTIFICATIVA


A doença celíaca (DC) é uma enteropatia desencadeada pelo glúten no indivíduo
geneticamente predisposto (Brandt & Silva, 2003).  Alguns autores relacionam a DC com hipoplasia de esmalte, uma vez que a prevalência desse defeito de esmalte é maior entre os pacientes celíacos quando comparada à população geral. (Aine et al., 1990; Miller, 1998).
Este estudo tem como objetivo verificar em pacientes celíacos: a prevalência e o
grau de acometimento de hipoplasia de esmalte dental; a relação entre a época de
formação dos dentes permanentes com a hipoplasia de esmalte e a época de
manifestação da DC e a relação entre a época de retirada do glúten da dieta e a
ausência de dentes permanentes hipoplásicos formados após a dieta isenta de
glúten. Ao se estabelecer uma relação entre a hipoplasia de esmalte e a doença celíaca, será possível identificar pacientes celíacos entre os pacientes com hipoplasia de causa ignorada. Com isso, a detecção da hipoplasia de esmalte – observada pelo exame odontológico a olho nu – poderá ser empregada como marcador/preditor para screening de diagnóstico das formas oligossintomáticas da doença celíaca. Caso se comprove essa relação, os resultados deste trabalho exercerão um impacto sobre os profissionais da Odontologia e Medicina, acerca da importância do diagnóstico das alterações da cavidade bucal associadas às doenças sistêmicas.

                                       ARTIGO CIENTÍFICO 

PREVALÊNCIA DE HIPOPLASIA DE ESMALTE DENTAL EM PACIENTES
CELÍACOS


Resumo

A doença celíaca (DC) é uma enteropatia desencadeada pelo glúten, no indivíduo
geneticamente predisposto. A hipoplasia de esmalte dental tem sido observada em
pacientes com a doença celíaca (DC). Essa alteração é decorrente da formação
defeituosa ou incompleta da matriz orgânica do tecido mineralizado. Vários estudos
relataram que a prevalência do defeito de esmalte é maior nos pacientes com DC,
quando comparada à população em geral, embora outros estudos mostrem
semelhança entre os grupos. Para avaliar a prevalência e possíveis associações
entre DC e hipoplasia de esmalte, com auxílio de cálculo amostral, selecionou-se 34
pacientes celíacos (C) e 32 pacientes não-celíacos (NC), atendidos no Ambulatório
de Gastroenterologia Pediátrica do Hospital das Clínicas da UFMG e cadastrados na
Associação dos Celíacos do Brasil - seção Minas Gerais. Todos os exames foram
realizados por um único examinador, previamente calibrado (Kappa 90%), adotando
os critérios para exame clínico preconizados por Aine et al. (1990). Os resultados
demonstraram diferença estatisticamente significativa na prevalência de hipoplasia
do esmalte dental no grupo C (88,2%), quando comparado ao grupo NC (28,6%)
(p=0,000). Os graus I e II de hipoplasia de esmalte nos pacientes C apresentaram
diferença estatisticamente significativa aos dos NC, respectivamente p=0,000 e
p=0,003. Os pacientes C apresentaram 8,91 vezes mais chance de apresentarem o
grau I de hipoplasia, e 6,77 vezes mais chance de apresentarem o grau II de
hipoplasia do que os pacientes NC. Os achados apontam para uma possível relação
entre DC e hipoplasia de esmalte, porém fazem-se necessários outros estudos para
aprofundar essa associação.


Introdução

A doença celíaca (DC) é uma enteropatia crônica e permanente no indivíduo
geneticamente predisposto, desencadeada pelo glúten (Brandt & Silva, 2003). É
caracterizada por inflamação crônica da mucosa do intestino delgado, resultando na
atrofia de suas vilosidades e conseqüente má absorção. As manifestações clínicas,
em geral, decorrem do déficit absortivo, sendo a diarréia crônica o sintoma mais
comum. No entanto, a DC pode se manifestar de modo bastante variado e atípico,
com sinais e sintomas diversos, isolados ou associados, tais como baixa estatura,
atraso menstrual, esterilidade e aftas recorrentes, entre outros (Kotze, 2004; Rauen
et al., 2005). Além da atrofia total ou parcial da mucosa do intestino delgado e má
absorção, a DC pode estar associada à anemia ferropriva refratária aos sais de ferro
por via oral, artralgia ou artrite, osteoporose e hipoplasia de esmalte dental
(Sdepanian et al., 1999). A DC pode ainda estar relacionada com a dermatite
herpetiforme, doenças auto-imunes e deficiência de IgA.No caso de necessidade de
reintrodução do glúten, esta só deverá ser feita após os seis anos de idade. Esta
recomendação tem como uma das finalidades evitar os defeitos no esmalte dental
(Brandt & Silva, 2003). O tratamento da DC consiste na exclusão permanente do
glúten da dieta, presente no trigo, cevada, centeio e aveia (Kotze, 2004).
Os avanços dos testes sorológicos e a compreensão do caráter multifatorial da
doença celíaca possibilitaram o reconhecimento de maior número de casos. Antes
de sua disponibilidade, a prevalência de DC na população era subestimada. Com a
utilização da triagem sorológica populacional, admite-se que a prevalência mundial
seja de 1:100 (Hill et al., 2002).

No primeiro screening realizado no Brasil e na América Latina, em 1999, utilizando o
anticorpo antigliadina (AAG) e, posteriormente, o anticorpo antiendomísio (AAE), a
prevalência foi de 1:681 (Gandolfi et al., 2000). Em estudo realizado no Hospital
Universitário de Brasília, em 2000, com 1686 crianças e adolescentes, foram
identificados seis indivíduos com AAE positivo e prevalência foi de 1:281 (Gandolfi et
al., 2000a).A hipoplasia de esmalte está relacionada com DC, uma vez que sua
prevalência é maior entre os pacientes celíacos, quando comparada com a
população (Aine et al., 1990; Miller, 1998).

A alteração dentária é decorrente da formação defeituosa ou incompleta da matriz
orgânica do tecido mineralizado, podendo ser considerada como defeito congênito
do esmalte provocado por fatores ambientais de natureza sistêmica, local ou de
caráter idiopático (Campos et al., 2004).

O desenvolvimento dental representa um marco fisiológico da relação
saúde/doença. A odontogênese tem início por volta da sexta semana de vida intra
uterina e caracteriza-se por ciclo vital bem definido de um processo fisiológico de
evolução contínua. O ciclo é dividido em estágios: crescimento, mineralização,
irrupção e atrição. O estágio de crescimento é subdividido em iniciação, proliferação,
histodiferenciação, morfodiferenciação e aposição (Ten Cate, 2001). Apesar de
ocorrerem simultaneamente na fase de aposição, a formação do esmalte dental
(amelogênese) só se inicia após a deposição da primeira camada de dentina - manto
(dentinogênese). Quando isso ocorre, os ameloblastos iniciam a produção de matriz
orgânica, onde haverá a deposição de sais minerais. O processo complexo de
formação do esmalte dental é realizado em duas etapas: formativa, quando há
secreção de matriz orgânica e mineralização parcial dessa matriz e maturação,
quando ocorre mineralização total em direção oposta à formação de matriz (de fora
para dentro). Assim, acontece a integração de ambos os processos, em que cada
prisma do esmalte mineraliza da profundidade para a superfície, sendo a seqüência
de sua maturação da ponta das cúspides ou bordas incisais até a cervical (Ten Cate,
2001). Determinados distúrbios que interferem na fase de maturação, podem
provocar a hipomineralização (Guedes Pinto, 2003).
A hipoplasia de esmalte dental pode estar associada a algumas condições tais
como, trauma ao nascimento, complicações durante e logo após o parto, infecção ou
traumatismos locais, irradiação, terapia antineoplásica, fissuras lábio-palatais,
hiperbilirrubinemia, desordens nutricionais, doenças metabólicas, sífilis congênita,
hipocalcemia, infecção pelo HIV, raquitismo e outros (Silva et al., 2000; Campos et
al., 2004; Granado et al., 2004). O defeito no esmalte pode ser o registro
permanente de algum transtorno sistêmico que ocorreu em determinado momento
da vida (Guedes Pinto, 2003).
A DC pode ser considerada um fator sistêmico responsável pela hipoplasia (Miller,
1998), alterando a forma do dente, que pode apresentar fossetas, ranhuras ou perda
de parte de sua estrutura. Os sítios do esmalte envolvido são passíveis de
pigmentação após a erupção dental, alterando a estética dentária (Neville et al.,
1998). A duração do estímulo nocivo sobre o ameloblasto tem grande influência no
aspecto e na localização do defeito. Em pacientes celíacos, o evento tem ocorrência
cronológica e simétrica nos quatro hemiarcos da dentição (Aine et al., 1990). A
alteração pode também estar relacionada com a época da instalação do processo
disabsortivo (Ballinger et al., 1994), mas não há consenso sobre os mecanismos de
formação da hipoplasia de esmalte na DC. Os distúrbios que podem ocasionar o
defeito são provavelmente de natureza nutricional ou imunológica (Mariani et al.,
1994). A má absorção de nutrientes está associada à hipocalcemia (Aine, 1996). No
entanto, não se observou diferença estatisticamente significativa do nível sérico de
cálcio entre as crianças celíacas com e sem lesões dentárias, o que para os autores
afasta a hipótese de que os defeitos do esmalte dependam apenas do metabolismo
do cálcio (Mariani et al., 1994). Quanto ao fator imunológico, existe associação
provável com o Human Leucocyte Antigen (HLA DR3). Na Itália, pacientes celíacos
foram divididos em grupos com e sem defeito de esmalte. Entre os celíacos com
defeito de esmalte, 77,2% foram HLA DR3 positivo. Por outro lado, o genótipo DR5,
DR7 estava presente em apenas 9% dessas crianças, sugerindo a proteção
proporcionada por ele contra lesões do esmalte (Mariani et al., 1994).
No Brasil, são poucos os estudos que relacionam DC e hipoplasia de esmalte dental
(Lopes et al., 2001: Barros et al., 2004).
Este estudo tem como objetivo verificar em pacientes celíacos: a prevalência e o
grau de acometimento de hipoplasia de esmalte dental; a relação entre a época de
formação dos dentes permanentes com a hipoplasia de esmalte e a época de
manifestação da DC e a relação entre a época de retirada do glúten da dieta e a
ausência de dentes permanentes hipoplásicos formados após a dieta isenta de
glúten.


Pacientes e métodos

Trata-se de um estudo transversal, observacional, analítico e cego, que foi
submetido e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da UFMG (201/04).
Utilizou-se o programa Epi-Info 6.04b (Dean et al., 1995) para o cálculo amostral
(n=27 para cada grupo), com um erro a= 5%, erro ß= 20% e o risco relativo de 2.
Para a obtenção da amostra, utilizou-se o fluxo contínuo de pacientes com DC ou
com diagnóstico de constipação intestinal funcional, perfazendo um total de 66
pacientes, 34 celíacos e 32 constipados (controle). Os pacientes eram oriundos do
Setor de Gastroenterologia Pediátrica do Hospital das Clínicas da UFMG e da
Associação dos Celíacos do Brasil – seção Minas Gerais (ACELBRA-MG). Para
realizar o estudo de prevalência, foram examinados pacientes com diagnóstico
definitivo de DC, obtido através de biopsia jejunal, e pacientes com constipação
intestinal funcional, sem quaisquer alterações sistêmicas ou síndromes associadas.
Foram incluídos pacientes da faixa etária entre sete e 23 anos que, por meio da
história médica e odontológica, não tivessem apresentado, antes dos seis anos de
idade, infecção ou traumatismo local na cavidade oral, terapia antineoplásica,
hiperbilirrubinemia, desordens nutricionais (deficiência de vitamina A, C ou D, cálcio
e/ou fósforo), doenças metabólicas, cardiopatias congênitas, doenças renais,
desordens neurológicas, rubéola, sarampo, varicela, escarlatina, epidermólise
bolhosa, sífilis, palato e/ou lábios fissurados e alteração dentária familiar.
Os exames clínicos odontológicos foram realizados em um só consultório, em Belo
Horizonte, MG, Brasil; sendo observadas todas as normas de biossegurança. A
calibração para o diagnóstico clínico da hipoplasia de esmalte dental foi realizada
utilizando-se fotos, slides e exames clínicos. Foram empregadas, como subsídio
para definição dos critérios diagnósticos, fotografias de diferentes afecções que
acometem o esmalte dental, tais como lesão de Turner, fluorose, cárie dental e a
hipoplasia propriamente dita. Após essa fase, ficou estabelecida a calibração clínica,
com dois exames intervalados por uma semana. Foi obtido o valor Kappa de 90%
validando a realização dos exames (Pereira, 1995). Os exames foram realizados por
uma única examinadora após a profilaxia dental, realizada por meio de limpeza
profissional da superfície coronária dos dentes com pasta profilática Herjos®
(Vigodent) e com o auxílio de instrumental apropriado (cabo e espelho odontológico,
seringa de ar, contra-ângulo, micromotor e escova de Robnson). Os dentes foram
secos e examinados visualmente, sob isolamento relativo feito com rolos de algodão
(Aine et al.,1990).
Na ocasião do exame, não se teve acesso ao prontuário clínico dos pacientes, para
evitar a distinção entre os celíacos e os não celíacos (estudo cego). A anamnese foi
realizada após o exame clínico odontológico. O acesso aos prontuários somente
ocorreu após o exame clínico. Os resultados relativos à prevalência da hipoplasia de
esmalte, tanto dos pacientes celíacos quanto dos pacientes não celíacos, foram
registrados no banco de dados do programa Epi–Info. Os dentes permanentes
afetados foram registrados para relacionar a época de sua formação com a data de
diagnóstico ou da manifestação clínica mencionada no prontuário médico. Foram
registrados também os dentes hígidos, para que se estabelecesse a relação com a
época de retirada do glúten da dieta.
O grau de hipoplasia de esmalte dental de elementos homólogos e hemiarcos foi
padronizado de acordo com a classificação dos diferentes níveis de
comprometimento do esmalte: 0 - sem defeitos no esmalte; I - defeito na coloração
do esmalte; II - defeitos estruturais leves no esmalte; III - defeitos estruturais
evidentes (perda de estrutura); IV - defeitos estruturais graves (perda de estrutura
associada à alteração na forma) (Aine et al.,1990). Neste trabalho, avaliaram-se
apenas os dentes homólogos. Para a calibração da escala de gravidade de
hipoplasia, recorreu-se ao exame clínico e imagens fotográficas. Houve
concordância de 90% (Pereira, 1995).
Nos pacientes constipados, em que se identificou a hipoplasia de esmalte dental,
foram realizadas a determinação sérica dos anticorpos IgG e IgA antigliadina
Para a análise estatística utilizou–se o programa Epi–Info versão 6.04b (Dean et al.,
1995). O teste do . (qui-quadrado) foi utilizado para a análise das variáveis
nominais, obedecendo aos pressupostos de freqüência esperada diferente de zero,
e, até no máximo, 20% da freqüência esperada menor que 5. Quando os
pressupostos não foram atendidos, o teste exato de Fisher foi aplicado. Os testes “t”
de Student/ F(ANOVA) foram utilizados para a variável idade, obedecendo-se os
pressupostos de normalidade nas curvas de distribuição e homogeneidade nas
variâncias. Como contra-prova, utilizou-se o Teste de Barlett. Para medida da
significância estatística considerou-se o valor de a=5% ou p< 0,05, para todos os
testes aplicados (Siegel & Castellan, 1988).

Resultados

Dos 34 pacientes celíacos, 14 eram do gênero masculino e 20 do feminino. Os 32
pacientes constipados (não-celíacos) apresentaram igual distribuição de gênero, 16
indivíduos cada. A média geral da idade entre os pacientes foi 13,318 (±6,587), não
havendo diferença estatisticamente significativa entre os gêneros e grupos
(p=0,113). Nesta amostra, não foi observada diferença estatisticamente significativa
(p=0,319) entre a presença de DC e o gênero dos pacientes (Tabela 1).

Tabela 1

Freqüências absoluta e relativa da variável gênero, média e desvio-padrão
referentes à idade (anos) de pacientes celíacos e não celíacos, 2007.


Dos 34 pacientes celíacos, 30 (88,2%) pacientes apresentaram hipoplasia de
esmalte dental e no grupo de pacientes não celíacos, apenas 12 (28,6%). Observou-
se que a hipoplasia é mais prevalente nos pacientes celíacos do que nos não
celíacos, com diferença estatisticamente significativa (p<0,001). O paciente celíaco
apresentou 12,5 vezes mais chance de apresentar hipoplasia de esmalte dental do
que o não celíaco (Tabela 2).


* Teste exato de Fisher.
Os diferentes graus de hipoplasia de esmalte dental verificados estão apresentados
na Tabela 3. Apenas um paciente celíaco (2,9%) apresentou todos os dentes
permanentes acometidos pela hipoplasia de esmalte no momento do exame. Cem
por cento dos pacientes não celíacos apresentaram pelo menos um dente
permanente com grau zero de hipoplasia, não havendo diferença estatisticamente
significativa entre os grupos (p=0,96).
O grau I de hipoplasia de esmalte foi verificado em 28 pacientes celíacos (82,4%) e
em 11 dos não celíacos (34,4%), com diferença estatisticamente significativa
(p<0,001). O paciente celíaco apresentou 8,91 vezes mais chance de ter a
hipoplasia de grau I do que o não celíaco.
Em relação ao grau II de hipoplasia, observa-se que 14 pacientes celíacos (41,2%)
apresentaram o comprometimento e entre os não celíacos, apenas 3 (9,4%),
havendo diferença estatisticamente significativa entre os grupos (p=0,003). O
paciente celíaco apresenta 6,77 vezes mais chance de apresentar o grau II de
hipoplasia do que o não celíaco.
As freqüências dos graus III e IV de hipoplasia de esmalte nos pacientes celíacos
foram 5,9% e 2,9%, respectivamente. Nos pacientes não celíacos, não se observou
a hipoplasia de esmalte de graus III e IV (p=0,262 e p=0, 515, para os graus III e IV,
respectivamente).
Dos 34 pacientes celíacos examinados, 23 (67%) tiveram o diagnóstico de DC antes
dos seis anos de idade e 11 (33%), após essa idade. Em relação à prevalência de
hipoplasia de esmalte entre os pacientes celíacos e a época do diagnóstico ou
remoção do glúten da dieta (antes e após seis anos de idade), não se verificou
diferença estatisticamente significativa entre as prevalências dos subgrupos
(p=0,611) (Tabela 4).


Discussão

A DC é uma enteropatia crônica, que diagnosticada e tratada precocemente
promove a melhoria da qualidade de vida do paciente, evitando repercussões locais
e sistêmicas. Uma das manifestações clinica é a hipoplasia de esmalte dental. A
prevalência de DC no Brasil não está definida devido à escassez e a dificuldade de
realizar estudos epidemiológicos sobre o assunto (Gandolfi et al., 2000; Gandolfi et
al., 2000a; Hill et al., 2002; Brandt & Silva, 2003).
A amostra deste estudo foi composta por 66 pacientes. Todos os 34 pacientes
celíacos tiveram o diagnóstico confirmado. Os 32 pacientes com constipação foram
considerados não celíacos. Os pacientes constipados com hipoplasia de esmalte
foram submetidos ao protocolo de exames para diagnóstico de DC. Os exames
sorológicos foram negativos em todos os pacientes controles com hipoplasia, não
sendo indicada a realização de biopsia jejunal (Brandt & Silva, 2003).
A média de idade de pacientes celíacos e não celíacos foi semelhante, inclusive
entre os gêneros, revelando amostra semelhante na variável idade. A faixa etária
variou entre sete e 23 anos. Embora Aine et al. (1990) tenham examinado apenas
adultos, tanto neste estudo como no daqueles autores, foram avaliados apenas os
dentes permanentes e o critério de inclusão da faixa etária priorizou pacientes acima
de sete anos, época comum da erupção dos incisivos permanentes (Guedes Pinto,
2003). Não foram examinados dentes decíduos, ao contrario de Lopes et al. (2001) e
Procaccini et al. (2007). Os dentes decíduos humanos têm sua formação iniciada por
volta da sexta ou sétima semana de vida intra-uterina e os dentes permanentes após
o nascimento. Durante as fases de formação do germe dentário, a deficiência de
nutrientes essenciais pode favorecer a formação de defeitos no esmalte, incluindo a
hipoplasia (Campos et al., 2004). A DC é desencadeada pela ingestão pós natal de
glúten. Sendo assim, as tentativas de relacionar DC e hipoplasia de esmalte em
dentes decíduos são questionáveis.
A prevalência de hipoplasia de esmalte foi maior nos celíacos (88,2%) do que nos
não celíacos (28,6%), tal como ocorreu nos estudos de Aine et al (1990) e Miller
(1998) realizados na Finlândia e na Inglaterra, respectivamente. Lopes et al. (2001),
no Brasil, e Procaccini et al. (2007), na Itália, constataram a prevalência de
hipoplasia de esmalte de 18,2% e 26,0% nos celíacos e 12,8% e 16,0% nos
controles, respectivamente. Diferente deste estudo, foram incluídos no exame os
dentes decíduos, sabidamente formados durante a gestação.
Na Suécia, Rasmusson & Eriksson (2001) relataram a prevalência de 50% de
hipoplasia de esmalte em celíacos e 38% nos controles. Ressalta-se que a
metodologia do exame clínico e o critério de seleção das crianças não celíacas não
foi explicitado, o que pode ter comprometido os resultados, uma vez que afecções
como varicela, pneumonia, escarlatina, sarampo e rubéola estão associadas a
defeitos do esmalte.
Aine et al. (1990) relacionaram a hipoplasia de esmalte à DC quando presente nos
quatro hemiarcos da dentição. Este estudo considerou a hipoplasia de esmalte em
dentes homólogos (avaliação feita por arcos dentários), pois há coincidência na
época de formação de dentes homólogos. Entre os hemiarcos, existe uma diferença
entre a época de formação dos dentes do arco superior e do arco inferior (Campos
et al., 2004).
Entre os pacientes celíacos, 97,1% apresentaram grau de hipoplasia zero em pelo
menos um dente permanente, o que significa ausência da hipoplasia de esmalte
dentário (dente hígido). Apenas um paciente celíaco (2,9%) não apresentou
qualquer dente permanente sem comprometimento. Cem por cento dos pacientes
controles apresentaram pelo menos um dente permanente, com grau zero de
acometimento de hipoplasia de esmalte. Esse dado difere do encontrado por Aine et
al. (1990), que observaram grau zero de hipoplasia de esmalte em apenas 6% dos
controles em 4% dos celíacos. Esta diferença pode estar relacionada à faixa etária
utilizada no referido estudo. A inclusão de adultos pode ser responsável pelo baixo
percentual de grau zero de hipoplasia de esmalte, uma vez que à medida que a
idade avança, aumenta a probabilidade de dentes restaurados, cariados ou
extraídos, e decresce a probabilidade de dentes hígidos (grau zero de hipoplasia de
esmalte).
Assim como no estudo de Aine et al. (1990), os graus I e II de hipoplasia de esmalte
são mais prevalentes em pacientes celíacos e não há diferença entre os celíacos e
os não celíacos quanto a presença de hipoplasia de esmalte dos graus III e IV. Os
autores ressaltaram a relação entre a gravidade dos sintomas da doença celíaca
(história clínica) e o grau de acometimento do dente em formação pela hipoplasia de
esmalte. O diagnóstico precoce da DC e a exclusão do glúten da dieta parecem
diminuir a freqüência e o grau de acometimento de defeitos de esmalte.
Dos 34 pacientes celíacos examinados, 23 (67%) tiveram o diagnóstico de DC antes
dos seis anos de idade. Entre esses 23 (100%) pacientes, 20 (87%) apresentaram
hipoplasia de esmalte. Em todos os casos, o dente com a hipoplasia de esmalte
estava em formação durante a manifestação clínica/época de diagnóstico da
doença, o que pode sugerir a relação da DC com a hipoplasia de esmalte dentário.
Os dentes formados após a retirada de glúten da dieta não foram acometidos por
hipoplasia de esmalte.
Dentre os 34 celíacos, 11 (33%) pacientes tiveram o diagnóstico de DC após os seis
anos de idade, quando os dentes permanentes já estão formados. Entre os 11, dois
(18%), acompanhados desde a infância, devido ao déficit de crescimento,
apresentavam hipoplasia de esmalte dental. Os outros nove (72%), receberam o
diagnóstico de DC pelos mais diversos motivos: a manifestação clássica, anemia
persistente, diagnóstico de diabetes mellitus na adolescência. Oito (88%) dos 9
pacientes tinham hipoplasia de esmalte dental. O paciente sem hipoplasia de
esmalte dental exibia várias restaurações na cavidade bucal, o que pode ter
mascarado a hipoplasia que pudesse estar presente antes do procedimento
restaurador. Nesses casos, não é possível relacionar a idade do diagnóstico ou a
retirada do glúten da dieta com a época de formação dos dentes e,
consequentemente, com a hipoplasia de esmalte, uma vez que o diagnóstico foi feito
após os seis anos de idade. Entretanto, por meio da história clínica, pode-se supor
que sintomas ou sinais isolados da DC estiveram presentes na época de formação
dos dentes permanentes.
A importância da relação inequívoca entre DC e a hipoplasia de esmalte se aplica
principalmente aos 11 (33%) pacientes, que podem ter sido diagnosticados
tardiamente, por não apresentarem a forma clássica da doença. Percebe-se que,
apesar da hipoplasia de esmalte dental estar presente na maioria dos pacientes com
DC, ela não pode ser considerada um marcador para screening de diagnóstico de
formas oligossintomáticas da doença celíaca, pois a hipoplasia de esmalte está
presente em outras condições.

Conclusões


A prevalência de hipoplasia de esmalte dental foi de 88,2% entre os celíacos,
sendo superior a dos não celíacos (28,6%).

Os graus 0,I,II,III e IV de acometimento de hipoplasia de esmalte dental foram
encontrados, nos pacientes celíacos, nas freqüências de: 97,1%, 82,4%,
41,2%, 5,9%, 2,9%, respectivamente.

Os graus I e II de hipoplasia de esmalte dental são mais prevalentes nos
celíacos do que nos não celíacos.

Os graus 0, III e IV de hipoplasia de esmalte dental não foram mais
prevalentes nos celíacos do que nos não celíacos.

A prevalência de hipoplasia de esmalte dental nos celíacos não foi diferente
quando o diagnóstico de DC foi estabelecido antes e após seis anos de vida.

O estudo sugere haver relação entre: a hipoplasia de esmalte presente nos
dentes permanentes em formação na época da manifestação da DC e a
ausência de hipoplasia de esmalte nos dentes permanentes formados após a
dieta isenta de glúten.

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